Já estava me preparando para um post sobre aborto. Minha menstruação me deu um susto, e eu estava num dilema: se estiver grávida, o que eu faço?
Conceitos morais e religiosos, à parte, o aborto é um assunto delicado. Envolve muitas mudanças, responsabilidades, escolhas, pessoas, dúvidas e certezas. Si és cuestión de confesar, eu já fiz um aborto. Em 2001, tinha 16 anos.
Foi uma situação desesperada, mas não poderia ter sido mais acertada. Como eu, com 16 anos poderia ter um bebê?
Claro, deve-se "pagar" pela "irresponsabilidade", como dizem alguns. Pode ser, mas era uma briga que eu não tinha maturidade e nem vontade de comprar. A situação, não poderia ser mais desfavorável: o bb era fruto de um relacionamento que já havia acabado, com o até então, meu melhor amigo. Ficamos pouco tempo juntos, eu já estava ficando mal vista na família dele porque desde 98 que ele era exageradamente apaixonado por mim e eu queria dele apenas a amizade. E como ele sofria e fazia show. O mundo inteiro sabe meu nome, quem eu era, e tudo mais. Para a família dele, eu era a menina que fazia o Cyro sofrer. Mas ela nunca me destratou na verdade.
Além desse fato de eu ter descoberto a gravidez (no banheiro da escola, fora do horário da aula, com uma amiga de infância que NÃO estudava comigo mas foi até o centro me prestar apoio e me emprestou dinheiro para comprar o teste - mesmo discordando da minha posição, principalmente por ser católica praticanet fervorosa, ela não saiu do meu lado - VALEU, RÊ!) depois de não termos mais relacionamento algum, ainda havia todo um fato social. Como contar para minha mãe? Ainda mais depois de tudo que ela passou com a minha irmã? O que minha família e meus vizinhos vão pensar? E o meu pai, como vai reagir? Logo eu, a promessa da família. Que eles acreditavam que passaria para uma universidade pública, que teria um futuro mais promissor que a primogênita.
E os estudos, como eu poderia estudar? E trabalhar? O que eu faria? Como amar uma criança cujo nem o pai eu amo? Uma criança que eu não quero ter, que não é bem-vinda, que vai acabar com a minha vida?
Sim, na época meus questionamentos eram todos esses. Minha cabeça era essa. Foi uma grande provação da vida.
Sim, uma provação. Se isso acontece, Deus me deu a chance. Sabe por que?
Por que muito antes disto acontecer, um cara, no chat da uol (que eu participava assiduamente)havia me dito que minha aura era cor laranja, que eu estava muito sexual, que deveria parar porque poderia ter problemas. E realmente, foi uma fase complicada da minha vida. EU tinha terminado três namoros desgastantes, longos e intensos Anderson (99/00), Lúcio e Raphael (2000) e estava meio que experimentando a vida. Experimentando os homens, mesmo que fazer sexo casual mesmo, eu fiz apenas com um, um colega de classe que eu julgava estar apaixonada (e mesmoa ssim foi um pouco antes de eu descobrir q estava grávida - e não era dele). Eu precisava brecar MESMO, pensar minha vida.
E veio a gravidez. E eu decidi tirar. A informação de como, veio pela mãe do Orelha. TIve muito apoio dos meus amigos próximos, da mãe da Rê, principalmente. Mais porque eu estava sozinha, sem rumo, não tinha coragem de contar para a minha mãe. E a maneira de abortar foi arriscada (o que, na época, eu não sabia). Eu udei um comprimido chamado Citotec. Ele é utilizado por ginecologistas para induzir o trabalho de parto, quando ele estaciona por algum motivo. Mas também como último recurso. É relativamente seguro, mas pode acontecer alguns casos de ruptura uterina. Ouvi dizer que já houveram mulheres que morreram por praticar aborto com ele. Mas tudo isso eu só soube tempos depois.
Quem cosneguiu o remédio foi a mãe do Cyro. Ela é enfermeira, e pra ela foi bastante difícil. Ela estava indo contra dua própria profissão, seus princípios.
O remédio custou quase 100 reais. Fizemos tudo na casa dela. Não senti nada. FUi pra casa. Algumas horas depois, uma cólica muito, muito forte, e eu sangrei bastante. O momento, que eu acredito ter sido a placenta saindo, foi o pior. Uma dor forte, um puxão e uma bola grande de sangue. Depois alívio. Quase um mini-parto mesmo.
Fiquei muito assustada, chorei horrores. Decidi contar para minha mãe, que ficou muito assustada, muito preocupada. A Rose, mãe da Rê, me ligou para saber, conversou comigo sobre a importância de eu ter minha mãe como amiga. Foi uma experiência traumática.
Fui ao médico depois, graças a deus não precisou de curetagem. Ficou tudo bem. Um clima maio de mal estar entre mim e a família de Cyro. Um clima de mal estar entre eu comigo mesma.
Depois desse dia, eu decidi que jamais faria isso de novo. A experiência é horrível, eu me senti um lixo, uma covarde, imoral. Mas não podia mais ficar me lamentando. Cheguei a mandar um email na época para meus contatos, tentando conscientizar as pessoas a não fazer isso, sem citar meu caso. Lembrei até de um poeminha, que minha irmã tinha no caderno ( e que NÃO é de minha autoria, como o Cyro chegou a pensar) e só me lembro o final dele, o que mais me marcou na época, e vou reescrevê-lo aqui:
"Nadando em águas quentes, sonhei um dia conhecer o sol, ou quem sabe brincar em um parque.
Hoje vejo que nada disto é possível, pois sinto a força da sucção a me puxar para fora do ventre
Amo-te por me dar a vida.
odeio-te por me matar
Sou fruto da sua irresponsabilidade e fecho os olhos para nunca mais te ver
Adeus, mamãe, adeus."
O que aconteceu depois disto é que fiquei 1 ano e 3 meses sem fazer sexo com ninguém. Alguns meses depois, cheguei até a ter experiências sexuais, mas nada relevante. Me senti muito bloqueada com homens em geral, e com a minha libido. Passei de ativa, que era nas épocas de Anderson, de descobrir o sexo, a passiva. E muitas vezes, a forçada. CHeguei a namorar um rapaz, coisa rápida, casinho de escola, mas por mais quente que ficassem as coisas, era como se eu voltasse a ser virgem. Não confiava mais em ninguém, não queria mais. Me sentia desconfortável e assustada. O jejum se quebrou apenas depois que conheci o Rafael, meu marido.
A vida me deu uma oportunidade de me redimir, hoje tenho uma filha linda, que amo muito e não deixo para que ningupém cuide no meu lugar. Acho que estou "pagando" pela minha irresponsabilidade, de maneira digna. No início, foi difícil aceitar a mudança que é a maternidade, tive depressão e síndrome do pânico. É ainda difícil, e só quem é mãe (MÃE, porque pai nem se compara) sabe realmente o que tudo isso significa. Quem não é, não pode ter a mínima idéia.
E, dessa vez, o susto novamente se repetia. Eu já estava resignada, me preparando para a provação.
Pensei, sim, em abortar. EM face as minhas condições financeiras, emocionais e psicológicas, seria o melhor caminho. Mas não era o que eu queria, na verdade. Por outro lado, eu sei que ter mais um filho do Rafael é se preparar para uma guerra. Ele é imaturo, estressado, faz de qq probleminha algo insolucionável, que consome e desgasta todas as energias. Ele não queria ter outro bebê de maneira nenhuma. Ainda mais depois de praticamente não receber o salário todo mês, por causa de dívidas e mais dívidas que não acabam. Eo alário que não dá? E plano de saúde? E como faremos para estudar? E a escola da Alanis?
E passar noites em claro de novo, ninar bebê com cólica, amamentar, carregar no colo. Ir em consultas médias, fazer exame, outro parto! Trocar fraldas, dar remédios, fazer papinha. Almoçar e jantar tarde, não ter hora para tomar um banho, para descansar, para ler, ouvir música. Ter de lidar com os ciúmes da filha, a falta da já escassa vida sexual. É uma vida difícil.